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É com grande alegria que O Outro do Outro fará parte da Ocupação Manifesta! no Teatro Cacilda Becker, nos dias 16, 17 e 18 de setembro, sexta e sábado às 20hs e domingo às 19hs.
Manifesta!
Uma declaração pública de princípios e intenções, um alerta ou denúncia de um estado, de uma época, uma aposta em alternativas e em possíveis mundos, uma convocação de comunidades, um nós que fala para um nós maior, chaves para o futuro comum.
Idealização do projeto
Dyonne Boy, Gustavo Ciriaco, Lucía Russo, Marcela Levi e Marta Vieira
Teatro Cacilda Becker
Rua do Catete, 338
Catete – Metro Largo do Machado
Ingressos 10,00 inteira e 5,00 meia
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11 de junho em Cuiabá - Mato Grosso
14 de junho em Campo Grande - Mato Grosso do Sul
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“Ola! eu sou natalia, sou uruguaia e esteve trabalhando em são paulo onde eu assiti sua presentação….achei muito interessante essa procura de você nas relações com os outros..em um momento onde as relações parecem não ter muito valor, onde todo mundo pode se conetar e desconectar quando quiser….achei um ato político em defensa da nossa integridade sua proposta….o outro é importante porque sem ele eu não existo, a minha autonomia é aberta, num sentido que precissa do contexto para se definir….em fim, eu não sou teórica e com certeza tem muitas pessoas que podem falar muito melhor do que eu sobre essas questões…só queria te dizer obrigada, são das peças que me ajudam a acreditar na dança e no teatro e no seu potencial para mixturar as emoções e o pensamento análitico numa coisa só…..quando isso aconteçe é muito bom e não tem sentido tentar falar sobre isso……a ultima coisa que queria te dizer é que agora estou num processo de criação e seu trabalho é um referente q sempre aparece….obrigada!”
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“Hola!
Después de la representación en la Sala Trono tuve el placer de preguntarte y hablar sobre la obra, pero seguia un poco asombrada. La verdad es que fue increíble, estuve con mi amiga pensando un buen rato en el hecho de ser personas y ser quien somos y terminamos preguntándonos quien somos en realidad, porque para el estado eres un DNI, para los amigos esa persona que tal, para una madre su hijo, etc etc
La verdad es que describir la sensación sería muy complicado, pero me gusto mucho y me pareció increíble el modo como sin darnos cuenta traspasaste esa cuarta pared y nos convertiste en la obra.
Espero que te vaya igual de bien o mejor en las próximas representaciones.
Y gracias por los minutos que nos atendiste después de la obra.”
Rebeka
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“Meu nome é João. Assisti ao Outro do Outro em Recife, dia 28/10 em Recife por volta das 22 horas. Gostei muito. O Outro do Outro fala de eu, fala de mim. Mas faz isso falando dos outros que fazem parte de mim, de João… um outro João. O quanto dele tenho em mim?
Sou sociólogo. Vivo tentando estudar as razões pelas quais as pessoas fazem as coisas que fazem da maneira que fazem, porque pensam da maneira que pensam. A sociologia que se preocupa com a socialização,como a que tento fazer, quando sensível aos indivíduos, põe em evidência que somos a incorporação do passado no presente: João é aquilo que viveu e conheceu até ali. Mas é só isso? O que é ou o que é que sou quando percebo a multiplicidade que existe em ser um, em ser eu: João? Na prática, a encarnação multipla de vários personagens reais em um fictício que pode se transformar em qualquer um deles , o diálogo com a linguagem documental e a exploração de sua fronteira com o ficcional, faz o Outro do Outro peça inteligente e sensível, que nos leva a pensar sobre nós mesmos de uma maneira densamente leve. Apesar dessa leveza, a trama não é de puro entretimento e performa estranheza no público (produzindo reflexão)a multiplicidade de eus exumadas do eu da personagem João. Somos todos eus e coisas? O Outro do Outro vale pela sinceridade da prosposta, pelo tratamento dramatizado de uma questão complexa:como expressar através da multiplicidade do um esse fato social tão difícil de ser captado que é demonstrar que ser um é ser muitos?
Valeu demais!”
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fotos de Clara Simas – Festival Internacional de Dança do Recife
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Viver : Diário de Pernambuco 28/10/2010
Sete meses depois de encenar o espetáculo O outro do outro no Recife, o ator e dançarino pernambucano João Lima faz uma nova apresentação na cidade como parte da programação do 15º Festival Internacional de Dança do Recife. Desta vez, Lima deixa o ambiente do teatro para apresentar sua performance na Rua da Alfândega (entre o Paço Alfândega e a Igreja da Madre de Deus), no Recife Antigo, a partir das 22h.
Ator e bailarino pernambucano mostra performance na Rua da Alfândega
Uma escolha desafiadora para o ator, mas ao mesmo tempo interessante, pois deve acrescentar novo peso ao jogo proposto pelo espetáculo, no sentido de embaralhar ainda mais os limites entre vida e arte. No corpo a corpo da rua, o abismo entre João Lima e a plateia tende a diminuir, dando um novo poder às palavras de apresentação do ator enquanto ele mesmo.
Propondo-se a discutir o sentido da identidade, o ator inicia um jogo de referenciação com base nas possibilidades que o discurso artístico permite. Primeiro ele diz seu nome, depois descreve características físicas, conta lembranças de infância que o ajudaram a ser quem é e números que o ajudam a se definir: RG, CPF, conta do banco e senha.
Fruto da bolsa de criação do programa Itaú Rumos Dança, a montagem se equilibra na fronteira entre dança e teatro. Pouco a pouco, as palavras de João Lima deixam de ser o único centro narrativo da performance e passam a dialogar com a expressão corporal do ator. Ele aplica o conceito do pintor René Magritte sintetizado na tela Ceci n’est pas une pipe (Isto não é um cachimbo) e passa a usar o espaço cênico para ser o que quiser.
Com a mesma expressão, ele pode ser um velho em coma ou uma criança olhando para o céu. Lima então assume o papel do pai, da mãe, da namorada, dos amigos, Caetano Veloso, brinca de ser o World Trade Center na hora do tombo após os ataques de 11 de setembro, a maçã de Isaac Newton e finge ser um lobo. Uma brincadeira que se estende para a plateia e só termina quando o silêncio se impõe diante da pergunta: quem somos nós? (Thiago Corrêa)
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21/10 Sala Trono – Tarragona, Espanha
27/10 Bienal Internacional do Ceará/De Par em Par – Fortaleza, Brasil
28/10 Festival Internacional de Dança do Recife – Recife, Brasil
06/11 Novembro da Dança – João Pessoa, Brasil
14/11 Festival Diagnóstico – Goiânia, Brasil
8/11 – 12/11 Workshop – João Pessoa, Brasil
Ficha Artística
Direção e interpretação João Costa Lima
Colaboração dramatúrgica Rita Natálio
Assistência de movimento Cecília Colacrai
Desenho sonoro Christian Dergarabedian
Operação de som Núria Bernaus
Design gráfico Clara Simas
Fotografia Ivson Miranda
Agradecimentos Pedro Nuñez, Elena Castilla, Cinira Macedo e Vera Mantero
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Aqui o link de uma entrevista e trechos do espetáculo realizado pelo Festival Nun Off em Barcelona: http://nunartbcn.com/nunofftv/o-outro-do-outro/.
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Apresentação Claustro do Oratório St. Felipe Neri, Gracia, Barcelona, 7 agosto.
Filed under: Sem categoria | Tags: Conexão Dança Contemporânea São Luís, Fotos Márcio Vasconcelos, Teatro Arthur Azevedo
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13/05 – 21h30 Centre Cívic Barceloneta, Calle Conreria 1-9, Barcelona.
19/05 – 20hs Conexão Dança Contemporânea, Teatro Arthur Azevedo, São Luís, Maranhão.
Workshops:
21 e 22 de maio das 9hs às 12hs, Conexão Dança Contemporânea, Pulsar Cia. de Dança , São Luís, Maranhão.
29 e 30 maio das 10h às 14hs, Nodes de Gracia, tragantDansa, Barcelona.
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“Bem, não sou especialista no assunto. Acho que tecnicamente, se posso falar assim, vc ocupou bem o espaço e conseguiu manter acesa a atenção do público. De outro lado, o tema das identidades humanas e sociais é rico, atual, toca à maioria das pessoas que têm um mínimo de reflexão e está submetido a mudanças profundas nesse momento histórico complexo, onde a solidez das coisas e das instituições é abalada, as noções de tempo e espaço são diferentes, tudo é mais acelerado e ao mesmo tempo efêmero, sofremos as influências do mundo virtual, das novas tecnologias, da globalização das culturas, as definições e categorias que antes eram exatas e delimitadas e que ajudavam a construir as identidades se fragmentam e se fundem como as profissões e o trabalho, as classes sociais, o público e o privado, os campos de conhecimento, os papéis sociais, enfim. Todo esse mundo pós. E, nesse sentido, vc provoca essa complexidade de influências e de estímulos múltiplos em nossas vidas, tudo isso que nos invade e confunde, as violências cotidianas, a perda de sentido, as invasões do sistema econômico e político sobre os indivíduos, a multiplicidade cultural. Então, acho que mais do que nunca a pergunta; quem sou eu? É atual, produz dúvida e incerteza. Parece que somos muitos e nenhum dos muitos ao mesmo tempo. Por um lado precisamos dessas identidades para conviver, nos relacionar e operar no mundo como pais, filhos, namorados, maridos, professores e alunos, empegados, patrões, consumidores, produtores, criadores etc, etc, etc, mas também precisamos guardar certa distância desses papéis não deixar que eles se colem em nossa pele, não nos fixarmos completamente. Creio que aí pode residir alguma liberdade, ou s eja, perceber a possibilidade de criar identidades e personagens, de nos dar conta de que somos por um lado condicionados historicamente, socializados, mas não prisioneiros. Acho que esse parece ser o desafio, o de identificar e ampliar nossos espaços de liberdade, de conviver e compreender nossos limites e trabalhar para domesticar nossos medos. Sua peça traz uma contribuição importante nesse processo de auto-conhecimento e de auto-interrogação de quem somos, e do que podemos ser nesse mundo conturbado.”
Obrigado Gustavo!
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“Eu sou Amanda Gabriel , não eu sou Amanda e Gabriel.
Porque é impossível dissociar uma coisa da outra. Porque cada pessoa é sempre um duplo, é sempre um Eu e um Outro.
Não, é um eu e alguns outros.
E tudo começa com o nome.porque antes do nome, do verbo, só existe o nada.
É aí que eu começo a ter a impressão de que o nome próprio deixa de ser somente a palavra que denomina a coisa e vira a ação de existir no mundo.
Um nome é sempre um ser e estar numa intrincada rede de signos e significados.
É assim que se constrói uma identidade, uma dramaturgia do ser. Subjetivo demais? Qual o lugar da subjetividade na arte contemporânea? Uma obra de arte pressupõe um olhar, um posicionamento. O corpo de um ator ou um bailarino em cena, o suporte de seu trabalho, vai além da objetividade técnica, traz sempre um história própria, uma forma se ser e estar no mundo, uma subjetividade inerente, materializada no gesto.
É assim que eu vejo João em cena. Um corpo disponível, aberto ao diálogo com o outro. Interessante é perceber que ele expõe sua subjetividade ainda mais nos momentos em que se pretende outro: assumir a alteridade implica em reconhecer o eu.
Deve ser por isso que mais que o João Biográfico do início, eu veja o João Artista: autor e objeto de seu discurso, apresentando uma forma muito própria de dialogar com a contemporaneidade sem incorrer no risco de criar uma obra hermética e auto-referente.
Talvez seja aí que resida a força da sua pesquisa: a capacidade de ecoar e expandir-se em outros e diversos eus.”
Obrigado Amanda Gabriel!
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Teatro // João Lima quer saber quem somos nós
Bastaria a presença de uma única pessoa na plateia para o ator João Lima apresentar a performance O outro do outro. Na noite da última sexta-feira, o ator encontrou mais que isso no Teatro Hermilo Borba Filho para poder estabelecer um jogo com o público. Desenvolvido através do programa Itaú Rumos Dança, o espetáculo procura questionar o sentido de identidade ao explorar possibilidades que uma palavra dita no palco pode despertar.
Com iluminação chapada, sem mudança em relação à hora em que o público tem acesso ao teatro, Lima surge no palco como ele mesmo, vestido feito qualquer jovem em sua idade e se apresenta. Diz seu nome, profissão, relata lembranças de infância, descreve características físicas e cita fatos que podem ajudar a desvendar quem ele é, despejando sentimentos, números de RG, CPF, passaporte, conta bancária e senha.
Nesse momento, quando a hiperrealidade já parece encaminhada, a performance toma outro rumo. A iluminação e o figurino são os mesmos, mas agora o ator assume o papel do seu pai,da mãe, da namorada, de amigos, conhecidos, de um funcionário do teatro, do cantor Caetano Veloso. Assim, o ator mostra que, no palco, ele pode ser o quiser quando pronuncia o verbo ser na primeira pessoa.
Aos poucos, as palavras se aliam à expressão corporal do ator. Lima, então, simula variações de queda enquanto incorpora o World Trade Center, a Dow Jones, a maçã de Newton. Mas se as palavras bastam por si, os gestos se revelam abertos. A combinação do verbo permite que um mesmo movimento ganhe outros sentidos. Deitado no chão, ele pode ser um velho em coma ou uma criança observando o céu.
Seguro de que o público acompanha o raciocínio, Lima mais uma vez subverte o jogo. Ao imitar um lobo, ele não diz mais que é o bicho, mas um homem imitando o animal. E já sem explicações, surge um número de dança com movimentos de tai chi chuan e yoga. É o prenúncio do que vem depois, quando as luzes reacendem e dois microfones ficam à disposição para o público contar algo de si, gerando tensão entre os espectadores. Após muito silêncio e algumas confissões, sem mais palavras, o ator sai de cena. É o fim do espetáculo, as perguntas sobre quem é ele e quem somos nós, porém, continuam pulsando.
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| JORNAL DO COMMERCIO – CADERNO C » ÚNICA APRESENTAÇÃO Reflexões sobre a identidade Publicado em 19.03.2010 A linguagem coreográfica, utilizada para refletir sobre a construção e a representação da identidade. Esta é a questão básica da performance que o bailarino João Costa Lima traz ao Recife, intitulada O outro do outro. A apresentação única na cidade acontece hoje, às 21h, no Teatro Hermilo Borba Filho (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife. Fone: 3232-2030). Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5. ………………………………………………………………………………… FOLHA DE PERNAMBUCO – Sexta, 19 de Março de 2010 Do desejo de romper as fronteiras existentes entre os universos da dança e do teatro surgiu o espetáculo “O Outro do Outro”, que faz única apresentação amanhã, às 21h, no teatro Hermilo Borba Filho. O espetáculo apresenta a performance solo do pernambucano João Costa Lima, que há seis anos reside na Europa, onde estudou dança contemporânea. |
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Depois de participar da Mostra de Processos Rumos Dança promovida pelo Itaú Cultural, em São Paulo, O Outro do Outro terá apresentação única em Recife nesta próxima sexta-feira (19/03) às 21h no Teatro Hermilo Borba Filho Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife | Fone: 3424.5429 Ingressos: R$ 10,00 (com meia entrada).
Apoios: Centro Civico Barceloneta, tragantDansa, O Rumo do Fumo e Centro Apolo Hermilo.
O Outro do Outro é uma obra em processo desenvolvida através do Programa Itaú Rumos Dança 2009/10.
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Do dia 4/03 ao dia 14/03, para ver toda a programação clique aqui.
Dia 10/03 às 19h no Teatro Coletivo, Sala 1 : O Outro do Outro (João Costa Lima) e Como Superar o Grande Cansaço? (Eduardo Fukushima)
O Outro do Outro
Pessoas são pessoas estão pessoas parecem pessoas imaginam pessoas revelam pessoas escondem pessoas oferecem pessoas beijam pessoas contratam pessoas maltratam pessoas olham pessoas excitam pessoas assustam pessoas ensinam pessoas aprendem pessoas comem pessoas cagam pessoas matam pessoas confundem pessoas alegram pessoas dançam pessoas sobem pessoas descem pessoas caem pessoas transportam pessoas fazem pessoas inventam pessoas descobrem pessoas pagam pessoas falam pessoas pensam pessoas sentem pessoas reviram pessoas transpiram pessoas assistem pessoas querem pessoas esquecem pessoas lembram pessoas
Direção e interpretação: João Costa Lima Colaboração dramatúrgica: Rita Natálio Colaboração ao movimento: Cecilia Colacrai Música: Christian Dergarabedian Apoios: Centro Cívico Barceloneta, tragantDansa e O Rumo do Fumo Agradecimentos: Núria Bernaus, Pedro Nuñez, Elena Castilla, Thiago Mello e Vera Mantero. Duração aproximada: 50 minutos
Teatro Coletivo Rua da Consolação, 1623 | informações 11 3255 5922| ingresso distribuído com meia hora de antecedência entrada franca
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“Viendo tu propuesta, me pareció un buen ejercicio, acertado, logrado. Y una de las mejores cosas, se lo comenté también a Christian durante mi enhorabuena por el sonido, es que consigues que parezca sencillo, y al parecer sencillo haya una fluida recepción del espectador. Los aparentes lugares comunes pronto entendí que no eran gratuitos sino más bien referencias por las que transitar para llegar más rápidamente al espectador. Todos sabíamos de lo que hablabas, todos nos podíamos sentir identificados con Pedro, Nuria, Maria, Caetano, el 11 de septiembre, Haití, etc. en un momento u otro.
Conseguir sencillez sin caer en lo fácil en algo que puede ser muy complejo y ser incluso engullido por lo conceptual, filosófico, semiótico, antropológico, etc., es para mi un acierto.
También que la cosa se vaya complicando in crecendo. El tempo y el ritmo de tu propuesta me gustaron mucho. La fisicalidad, tu presencia en el espacio, también. Que incorpores -no como algo meramente anecdótico en tu pieza- a las personas de tragantDansa y la especificidad del lugar, es muy coherente con tu propuesta y vuelve a explicar que la identidad sea un constructo inherente a cada individuo pero que también tiene en cuenta la circunstancia, alos otros, y el azar.
Arrancas de los “datos”, que son los hechos más objetivos que poseemos para interpretar la realidad (naturalismo y cientifismo de inicios del XX) para llegar a la subjetividad y demostrar que la identidad no es cosa de 2+2=4. Para ello incorporas el cuerpo y lo haces protagonista. Y nos invitas a seguirlo con la mirada (el momento círculos) como si se tratara de una danza sufí. El espectador puede entrar o no, nada se obliga pero la invitación es muy tentadora y quién no busca en los tiempos que corren dejarse seducir! A mi, ese momento me embaucó y entonces sentí que tú y yo éramos, podíamos ser, una misma identidad. Ese es el milagro de dos o más seres que entran en contacto: el vínculo que los une, pero que sin conciencia no es posible. Me pareció muy bonito. Sin embargo, cuando crucé el espacio todavía me sentía muy alejada de las otras identidades que estaban en la sala. Por eso me parecieron tus vueltas en círculo un punto de inflexión importante.
Nombrar crea el mundo, y las identidades. Pero no sabemos hasta qué punto el otro (o no nos atrevemos en muchas ocasiones) puede explicarnos nuestra identidad, sin palabras.”
Muchas gracias Mar!
Filed under: Outros, Referências | Tags: Christian Dergarabedian, Earzumba, música
aqui o link de Christian Dergarabedian, músico-compositor argentino, colaborador deste processo: http://www.myspace.com/earzumba
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Durante os meses de janeiro e fevereiro o processo de O outro do outro se desenvolveu em residência nos espaços tragantDansa, O Rumo do Fumo e no Centro Cívico Barceloneta, com a colaboração de Rita Natálio (dramaturgia), Christian Dergarabedian (música) e Cecília Colacrai (assitência ao movimento). Aproveitamos este ensaio aberto para seguir experimentando possibilidades, desta vez tornando o processo público, com a curiosidade de saber de que formas a comunicação pode acontecer.
Agradecimentos especiais a Pedro Nuñez, Elena Castilla, Antje Kuhlebert, Vera Mantero, Mar Córdoba, Olga Tragant, Thiago Mello, Equipe do Centro Civico Barceloneta e Núria Bernaus.
Amanhã, sábado 27 de fevereiro às 21hs, entrada gratuita.
TragantDansa c/ reig i bonet 23 baixos (Gràcia), 08024 BCN (M: L4 Joanic) | t. 93 5398949 |
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Hipotiposis (via wikipédia), (do griego: úποτúπωσις), é uma figura retórica que corresponde a um tipo de descrição vivida que mostra algo longínquo ou pouco relacionado com o público de forma patética ou muito emotiva ante os olhos, ouvidos e a imaginaçao deste público, como se ele estivesse presente assistindo.
Exemplo: quando nas igrejas os padres ou pastores ensinam aos membros como será sua futura estadía no almejado paraíso. (via wikipédia)
Sinestesia (via wikipédia) (do grego συναισθησία, συν- (syn-) “união” ou “junção” e -αισθησία (-esthesia) “sensação” é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o olfato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica.
Os sinestésicos percebem com freqüência correspondências entre tons de cor, sons e intensidades dos sabores de forma involuntária. Estas experiências não são metafóricas ou meras associações, mas percepções. Alguns vêm cores quando escutam música, outros podem sentir o sabor das palavras.
Os cientistas defendem a idéia de que a sinestesia se deve a uma ativação cruzada de áreas adjacentes do cérebro que processam diferentes informações sensoriais.
Cinestesia (via wikipédia) etimologicamente significa sensação ou percepção do movimento. Em medicina e psicologia esta palavra alude à sensação que um indivíduo tem de seu corpo, particularmente dos movimentos que este realiza. Esta sensação é principalmente facilitada pelos receptores. Por exemplo, por aqueles localizados na cóclea do ouvido interno, e pela percepção da mobilidade muscular.
“A natureza das imagens de algo que ainda não aconteceu, e pode de fato nunca vir a acontecer, não é diferente da natureza das imagens acerca de algo que já aconteceu e que retemos. Elas constituem a memória de um futuro possível e não do passado que já foi. (…) O que as representações dispositivas armazenam em suas pequenas comunidades de sinapses não é uma imagem per se, mas um meio para reconstruir um esboço dessa imagem. Se você possui uma representação dispositiva para o rosto de tia Maria, essa representação não contém o rosto dela como tal, mas os padrões de disparo que desencadeiam a reconstrução momentânea de uma representação aproximada desse rosto nos córtices visuais iniciais” O Erro de Descartes, Antônio Damásio
“Cada um narra a história da sua vida, que dá sentido ao que ele vive. (…) Entre a experiência vivida e a narrativa, é frequentemente bastante difícil dizer qual é a motriz, a que domina.” A Invenção de si, Jean-Claude Kaufmann
Filed under: Alteridade, corpo, Escrita Coreográfica, Identidade, Linguagem, Outros, Representação | Tags: composição, comunicaçao, imaginaçao, subjetividades flexíveis, transformaçao.
Já faz algum tempo que queria voltar a escrever uma nota pessoal neste blog. Falar do trabalho, dos caminhos, das pessoas e reviravoltas deste processo, mas não é tão fácil assim.
Depois de muito andar às voltas com “os outros” em mente (no corpo, claro!), cheguei a um ponto que me parece prévio a esta questão, trata-se da própria idéia de identidade, de como a percebemos, de como construímos e desconstruímos as nossas representações, e as representações dos outros, de como somos múltiplos. E, sim, de como nos relacionamos.
Antes de pensar em esclarecer qualquer “princípio de identidade”, percebo neste trabalho o interesse em questionar os padrões de reconhecimento e identificação, ativar uma visão crítica sobre a idéia de identidade. O que entendemos por esta palavra? O que ela implica? Como podemos construir a nossa história uma vez que hoje podemos reconstruir nossos corpos e identidades? “Toda a utilização da noção de identidade começa por uma crítica desta noção” (Lévi-Strauss).
Durante um período intenso de trabalho com a dramaturga Rita Natálio, experimentamos diversas possibilidades de composição, levantando questões e buscando desenvolver uma estrutura performática com contornos que se interroguem. Relações variadas acontecem no fluxo entre enunciação, ação e imaginação. A comunicação e seus detonantes.
Surge o interesse pelas biografias, memórias, vozes, gestos, palavras, rostos e nomes. Penso nas pessoas. Penso nas subjetividades flexíveis, e me fascina o lugar físico que é a imaginação, aquilo que nos permite ler e compor, porque já sabemos que a imaginação habita na percepção, e inversamente.
E o trabalho vai acontecendo, através da presença, da escrita e leitura, dos desdobramentos, à procura de sutilezas e de uma relação direta com o outro. As questões vão se abrindo em outras e o próprio lugar da linguagem inunda este processo de dúvidas e aprendizados. A cada ensaio surgem novas possibilidades, e através dos limites pessoais surgem descobertas. A cena se revela um lugar aberto, destinado a relações e transformações. Aqui viramos outros, uma e outra vez.
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Filed under: corpo, Escrita Coreográfica, Representação | Tags: arte contemporanea, dança, Rémy Héritier
Convidado da vez, Rémy Héritier, bailarino e coreógrafo francês, multiplica os pontos de vista sobre a criação:
Eu gostaria de fazer um comentário sobre o procedimento desta entrevista. Responder um monte de questões preparadas não é muito fácil para mim, sobretudo porque a minha resposta não pode afetar a próxima questão e assim por diante. Esta entrevista já inclui uma estética, que eu tenho que me adaptar. Este é o jogo, vou aceitar assim.
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?
Eu posso observar uma mudança no meu trabalho desde a criação de Chevreuil. Até lá eu achava que cada peça era uma coisa totalmente nova e a conexão com um trabalho antigo não tinha que ser muito consciente. Agora eu penso que é crucial (artisticamente falando) para desenvolver o meu trabalho, usar e trabalhar de novo com materiais anteriores; ser confrontado ao meu trabalho na sua própria tematização. O que eu preciso saber, escrito grosseiramente, é que eu quero fazer a mesma peça sempre até eu atingir o ponto. Ponto que eu ainda tenho que descobrir, literalmente revelar ou encontrar. Desde então eu não quero me carregar com um tema que muda para cada trabalho ter a ilusão de novidade ou colocar um rótulo no trabalho. Assim, os pontos de partida são mais ou menos a relação que liga um evento à sua testemunha.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
Como eu já escrevi, eu não uso temas para trabalhar. Isto implica que eu não trabalho em uma linha direta buscando um objetivo. Conseqüentemente todo o esforço do trabalho é criar alusão a algo concebível, mas que não é possível apresentar. É assim que eu dou um lugar à representação no meu trabalho (com ajuda de Jean-François Lyotard, em The Postmodern Explained to Children).
Que relações você se propõe com seus espectadores?
Eu proponho que eles sejam testemunhas de um acontecimento; uma testemunha, por definição, toma parte em um acontecimento e é a própria testemunha quem cria o acontecimento; Eu quero este tipo de relação, ter o sentimento de ser incluído em um processo que trabalha além da duração do espetáculo. Conseqüentemente estou muito interessado no conceito de ambiente que propõe que não se faça distinção entre “eu e o meu ambiente”. Esta última idéia também é um ponto de partida para meu trabalho. Então tudo está interligado e ainda é difícil descobrir “se é o ovo ou a galinha?” o primeiro no trabalho.
Com que corpo trabalhas? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?
Quando eu comecei meu próprio trabalho eu estava trabalhando com corpos muito treinados, com bailarinos para ser mais claro, depois eu decidi trabalhar com bailarinos mas para atividades mais pedestres assim dizendo, e agora eu sinto que estou voltando a trabalhar com bailarinos muito treinados, não realmente pelo seu virtuosismo ou qualquer coisa do tipo, mas pelo seu corpo cheio de Uma história específica de dança. Até certo ponto, eu poderia trabalhar com alguém com uma má técnica acadêmica mas alguém que atravessou uma varidade de experiências de dança (workshops, aulas, performances…)
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Não sei precisamente, mas eu sei que está situado em torno da questão da “auto-expressão”. Eu penso que não existe possibilidade hoje em dia de trabalhar a “auto- expressão”, neste egoísta “Eu”. O “Eu” é um filtro, mas não um resultado a mostrar. A questão seria focar nas relações que ligam Intimidade e o social, trabalhar apenas nestas cadeias invisíveis, mas não na intimidade visível nem o social.
Rémy Héritier é bailarino e coreógrafo. Vive e trabalha em Paris. Desde vários anos, ele segue um percurso de intérprete (Mathilde Monnier, Laurent Pichaud, Jennifer Lacey, Loïc Touzé, Philipp Gehmacher…) e desenvolve em paralelo os seus próprios projetos. Seu trabalho toma forma de laboratórios de pesquisas para objetos em questões – respostas reunindo compositores, bailarinos, cenógrafos, escritores. Estes tempos de pesquisa tem como objetivo de investir em lugares no interior e de desenvolver modos de trabalho que lhes sejam específicos. Em 2003 ele cria com Raphaël Marre a associação Give them birth… or die! Resultando de um processo de trabalho de dois anos, ele cria em junho de 2005 a peça Arnold versus Pablo. À convite da Fundação Cartier para Arte Contemporânea ele apresenta em setembro do mesmo ano Archives, performance para seis bailarinos e um videasta. Ele desenvolve até 2007 uma colaboração com o escritor Christophe Fiat sobre o projeto A Reconstituição Histórica estreado no Théâtre de la Bastille em maio de 2006 assim como para La Jeune Fille à la Bombe estreado no Festival d’Avignon 2007. A convite do FRAC/ le Plateau e do Parc de la Villette, ele apresenta Domestiqué Coyote, performance no parque de la Villette nos dias 30 de junho e primeiro de julho de 2006.
Em maio de 2007 ele estreou no Vivat d`Armentières a peça Atteindre la Fin du Western. Em 2007 -2008 ele é convidado a trabalhar em residência em diversos lugares da França e no estrangeiro (la Malterie em Lille, Çati Dans em Istanbul, 5. Bafa Meeting na Turquia. Ele também faz parte do projeto EXPEDITION european platform for artistic exchange e também é recebido em residência no Gasthuis em Amsterdam, Brut em Vienna, Les Laboratoires d’Aubervilliers. Em março de 2008 ele apresenta um “walk&talk” no Tanzquartier Wien no âmbito da série Still Moving com curadoria de Philipp Gehmacher.
A sua trajetória é influenciada pelo seu curso universitário em Ciências Sociais assim como pela sua formação coreográfica e as colaborações levadas desde então. Ela se situa a princípio em um nível muito simples, ancorado na experimentação: a dança como um ato. É somente a partir desta simplicidade que ele deseja tecer relações mais complexas a uma escrita coreográfica que produza sentido mais além dos elementos separados que a compõem.
Uma dupla problemática guia as suas pesquisas:
1/ O bailarino é o único centro do que será apreendido pelo espectador: ele é o acontecimento.
2/ O bailarino evolui em um contexto: ele é uma parte do acontecimento sem ser o único centro.
Ele deseja um projeto coreográfico constituído de peças e de tempos de pesquisa implicando artistas, às vezes amadores, em que a dança, a coreografia gere seus próprios questionamentos. Trata-se de dar à coreografia um lugar autônomo mais do que o estatuto de uma “arte aplicada”.
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Continuando o ciclo de entrevistas, Natalia Tencer, performer e coreógrafa argentina, dá as suas palavras:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?
O ponto de partida em geral é a crença e a necessidade de que o corpo ainda tem algo para dizer que corresponde a um estranhamento a sua própria realidade.
O ponto de partida também pode vir de estímulos como músicas, palavras, sensações físicas, necessidades de experimentar um tipo de figurino. Logo se trata de desdobrar, averiguando na investigação o universo, multiverso, as diversidades que estes estímulos irradiam, o campo associativo que os envolve.
Identifico o ponto de partida seguindo uma necessidade imperiosa de querer referirme a algo, inscreverme em algo, e em geral tem a ver com a sensação de que o corpo ainda pode dizer algo que não foi dito, de um modo particular que este, meu corpo, diz, fala, se manifesta, se expressa.
Esse foi o ponto de partida do meu primeiro trabalho coreográfico, um solo, que criei entre 2006/7 e que ainda continuo apresentando em vários lugares, se chama “Sobrenatural”. Organizar em uma encenação um modo de expressar o movimento específico deste corpo, que habilita e percebe que dança, o movimento pode estar manifestado de diferentes formas, e além disso não existe um só tipo de corpo de dança contemporânea.
O que é dança para este corpo, que tem basicamente a ver com a apresentação de uma experiência, perceber que o corpo está atravessando uma experiência de imaginação que desperta experiências de sensações físicas, logo a partir dalí se constrói a dramaturgia, que viria a ser algo que o próprio trabalho revela, vai dizendo, com necessidades espaciais, rítmicas, temporais. Lógicas que o próprio trabalho vai despreendendo, no caso de “Sobrenatural”, é um corpo nú, então requer uma determinada luz, as decisões de onde situar cada segmento de movimento segundo o espaço que ocupam e como estes espaços se combinam na sua totalidade, seguindo os rítmos de cada um destes segmentos a ordem que tem que ter. Desde a sua criação e estréia até o momento, que já foi apresentado em vários espaços, a dramaturgia é algo que constantemente vai se pontualizando e afinando, polindo, e vai tendo retoques, pequenas mudanças, nas suas primeiras apresentações parecia que o solo pedia um luz e uma música que já não são as mesmas, que pedia um modo de estar no movimento um pouco fechado e animal, que já não é o mesmo, é mais aberto e menos animal. Quero dizer que ao continuar apresentando e ensaiando para cada ocasião fui trabalhando a dramaturgia do trabalho, quer dizer que é algo móvel, que justamente está em constante movimento, com o tempo o trabalho vai crescendo, mutando, como também a intérprete e isto gera modificações sutis que afinam o sentido dramático da peça.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
Entendo que a pergunta tenha a ver com a questão da apresentação. Não sei se me relaciono com os termos de apresentação e representação. Me relaciono com a idéia de que o corpo em cena é atravessado por e está atravessando uma experiência, algo que o move, é movido por diferentes coisas, que o fazem estar e ser em modos de mover específicos. Algo que o comove, que modifica a sua presença, altera, afeta, e é o que permite que seu passo pela cena nao seja uma conclusão fixa, fechada. Um corpo que se pergunta, que expõe sua dualidade, sua contradição, que não tem certezas em relação ao que o afeta mas que esteja aberto a ser movido por estes acontecimentos.
Que relações você se propõe com seus espectadores?
Com os espectadores a relação é tentar que o que o corpo expresse se encontre em um campo suficientemente aberto e justamente em pergunta, afirmando e questionando constantemente isto que está sendo expressado, isso que o corpo faz, que isto que lhe aconteça não esteja fechado em uma só imagem mas que tenha referências a um monte de possíveis leituras, ou que desperte no espectador diversas leituras possíveis sobre o que vê. Sobretudo me interessa um corpo ocupado, fascinado pelo seu fazer, não fazendo de conta, mas tendo uma experiência do que faz, atravessando a experiência, e acho que se o corpo em cena se ocupa desta forma, aciona e atua a partir daí, o espectador pode chegar a acessar esta experiência, a tocá-la. Se o corpo é tocado o corpo do espectador também será tocado. Meu grande desejo é justamente este, que o corpo do espectador seja tocado, intervido. Quando vou ver dança, me dou conta que meu corpo é tocado pelo que vejo quando tenho espasmos involuntários de movimento em diferentes músculos enquanto olho. Quando a minha atenção não pode deixar de estar na cena. Recebi vários feedbacks em relação a “Sobrenatural” sobre isto, gente que me disse que se viu atraída o tempo todo pelo que fazia que não podiam deixar de olhar, que não havia distração, e que algo aconteceu no seu corpo, mesmo que seja se sentir incomôdo. Não me interessa mostrar ou demonstrar algo, uma destreza, um saber fazer, mas por em cena um estremecimento, uma infecção, uma vibração, uma desfaçatez, e primordialmente estender uma mão como sugestão ao espectador para convidá-lo a experimentar e pensar comigo, junto a mim, no mesmo nível.
Com que corpo trabalhas? com um corpo real, dinâmico, com um corpo movido por outros corpos… Qual é o lugar do corpo em seu trabalho? É o meio para expressar um modo de perceber a existência, de perceber o dinamismo e a mobilidade das coisas.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Acho que poderia se perguntar sobre a contemplação, a atenção, a tentação, a pomposidade, sutuosidade, magnificência, o fausto, as sensações, o peso, o volume de algo, sobre o estético, a beleza, sobre os conteúdos, sobre dizer algo, atrever-se a dizer algo e tomar o tempo de mergulhar profundamente, de colocar-se em risco, acho que a arte contemporânea de hoje não toma riscos, mas como nada na sociedade de consumo, de mercado, onde o tempo todo o discurso é evitar o risco, o não saber, a incerteza, tudo está sendo feito e construído para se ter mais controle sobre as coisas, para ser mais lindo de um só modo, para cumprir, para seguir um modo, acho que na arte contemporânea não há margem de erro, não há paixão pelas pequenas coisas, as sutis, os descansos, acho que e sinto que aos artistas custa se perguntar algo, mas perguntar-se sinceramente, mais além dos deveres ser como artistas do que o mercado diz que se deve fazer, do que a teórica diz que se deve fazer. Também observo na dança contemporânea especificamente uma distância do corpo, um deixar de dizer com o corpo, deixar de colocá-lo em movimento para que se expresse. Ultimamente me sinto em correspondência com a idéia da tecnificação, não para ter uma destreza técnica, mas porque verdadeiramente sinto que é bom que o corpo tenha disponibilidade física, abertura física, o que não quer só dizer destreza física, mas para se expressar, para ultrapassar seus limites.
Creio que seria bom que a arte se pergunte sobre o estético, os conteúdos, o dizer algo, o ser excesivo, ridículo, romântico, barroco, extremo.
Natália Tencer, intérprete/criadora, docente; coreógrafa de improvisação em dança contemporânea. Sua formação é independente na Argentina, América Latina e Europa com diferentes artistas e professores como Eugenia Estevez, Vivan Luz, Diana Szeinblum, Fabiana Capriotti, Carlos Casella, Meg Stuart, Thomas Lehmen, Mark Tompkins, João Fiadeiro, Vera Mantero, Benoit Lachambre, Boris Charmatz, Xavier Le Roy, David Zambrano, Steve Paxtón, Ko MurobushI, entre outros. Foi convidada a participar como intérprete/criadora em projetos de diferentes coreógrafos europeus como Meg Stuart, Ztok Kovac e Boris Charmatz. Seu trabalho coreográfico Sobrenatural foi apresentado em encontros e festivais de Buenos Aires, La Plata, Neuquén, Jujuy, Salvador da Bahia, França, Chile, México. Atualmente é convidada da Culturesfrance para a Bienal de Dança do Caribe em Havana, Cuba. Foi intérprete na peça Alguien Próximo de Lucas Condro e El Borde Silencioso de las Cosas de Lucia Russo. Coordena como intérprete, e em colaboração com outros artistas, projetos de improvisação que se apresentam em diferentes espaços culturais nas cidades de Buenos Aires, La Plata e San Pedro.
Atualmente é convidada ao Festival de Intervenciones de Improvisación Urbanas no México. Trabalha como docente da matéria Composição Coreográfica e Oficina Coreográfica de Dança Teatro no Instituto Universitário Nacional de Arte, Dpto. de Artes del Movimiento. É professora da matéria Direção de Modelos na Escola de Fotografia Criativa de Andy Goldstein. Dá cursos regulares e oficinas de improvisação em espaços culturais de Buenos Aires, La Plata e San Pedro. Foi e é convidada a ensinar em Jujuy, Bolívia, Chile, Mar Azul, Tucumán e Salta.
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Miguel Pereira, intérprete e coreógrafo português, aponta novas direções, respondendo as nossas questões:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?O problema é sempre o ponto de partida. Nunca há um início, um começo, nós já estamos lá no meio de qualquer coisa, de uma confusão. O ponto de partida é começar a abrir um caminho num território que não dominamos. A estratégia é arranjar modos de ir mais longe dentro desse caminho, identificá-lo e enquadrá-lo.
A dramaturgia é então essa estratégia de dar uma ordem a partir do tal meio caótico onde nos encontramos.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?Eu parto do princípio que tudo já é representação, re-apresentação. E a partir daí é todo um trabalho de desconstrução desses códigos que compôem essas representações. É como se nós controlássemos ou dominássemos uma natureza que a dado momento, sem que o possamos impedir, se revela por si só. É nessa zona que não controlamos, que o trabalho me começa a interessar, nesses momentos que podemos apelidar de descuido, fragilidade, revelação, de improbabilidade.
Que relações você se propõe com seus espectadores?Para mim é sempre uma relação com o outro, no sentido de me (con)firmar e me (a)firmar e vice versa, e então o espectáculo é mais uma forma de um confronto, um diálogo, uma tensão. O espectador legitima o meu trabalho. Sem ele o espectáculo não tem cabimento.
Com que corpo trabalhas? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?O corpo está sempre lá, o corpo com que vivo, o corpo dos outros. O corpo e o espaço, o corpo e o tempo. E isso já é a matéria do trabalho, o corpo que existe com tudo o que existe á volta, com as suas inquietações, os seus desejos, os seus medos, as suas formas e as suas práticas.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?As artes contemporâneas devem fazer aquilo que elas sempre fazem. Questionar, questionar, questionar. Quando produzem, elas têm que ser incisivas e têm que procurar um espaço fora das convenções, têm que ir contra, subverter, alterar o que já está instituído no modo de existir. Aí elas têm a sua função.
Miguel Pereira trabalhou como intérprete com, entre outros, Francisco Camacho e Vera Mantero. Colaborou com Jerôme Bel em “ Shirtologia (Miguel)”, (1997). Como criador tem desenvolvido vários projectos apresentados na Europa e Brasil dos quais destaca “Antonio Miguel” – Prémio Revelação José Ribeiro da Fonte do Ministério da Cultura e menção honrosa do prémio Acarte 2000 – , “Notas Para Um Espectáculo Invisível”(2001), a peça com o título “data/local” (2002), “Transitions” para a Transitions Dance Company do Laban Centre (2004) e “Corpo de Baile”(2005). Em Junho 2006 estreou o projecto de colaboração com a coreógrafa egípcia Karima Mansour “Karima meets Lisboa meets Miguel meets Cairo”.
O seu último trabalho Doo, desenvolvido em Maputo e Lisboa, estreou em Junho 2008 no Festival Alkantara em Lisboa.
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Agora é a vez de Marco Berrettini, bailarino e coreógrafo italiano, dar as suas palavras:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?Eu acho que sou mais sensível às evoluções da sociedade ocidental. Acredito que os filósofos ou sociólogos constatam as mudanças, e eu me inclino sobre a questão se eu pude constatar sozinho estas mudanças e de que forma eu poderia falar disto nas minhas peças. É por esta razão que muitas vezes criei peças partindo de um livro do filósofo alemão Peter Sloterdijk.
As estratégias utilizadas são mais dificilmente identificáveis. Isto depende se o livro de Sloterdijk já teria proposto uma estrutura que eu poderia adaptar. Mas as estratégias dependem de quem trabalha comigo no projeto, durante quanto tempo, com quanto dinheiro. O que conta igualmente é de que peça eu acabo de sair. Eu concebo uma peça como o prolongamento de um pensamento já tratado nas peças antecedentes, mas talvez não inteiramente resolvidos.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
Eu tenho uma pequena filosofia sobre isto. Os ensaios devem ser uma representação e as representações devem ser tão relaxadas e livres como os ensaios.
Que relações você se propõe com seus espectadores?
Sob a influência de Pina Bausch, eu também pratiquei a “interatividade” com o público durante alguns anos. Depois de algum tempo, eu me distanciei desta atitude. O que eu procuro é manter o público concentrado sobre a peça, sejam as cenas engraçadas ou sérias.
Com que corpo você trabalha? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?
Eu gosto muito de partir do princípio de que não importa quem seja pode executar uma dança interessante. Eu trabalho, em primeiro lugar, com gente que me interessa, antes de pensar nas suas proezas técnicas. Mas, uma vez que o trabalho começa, eu tento que todo o material da criação seja visto através dos olhos da dança, da dança num sentido amplo. Do gesto cotidiano à dança clássica, passando pela improvisação e as comédias musicais. Eu procuro sempre uma linguagem coreográfica justa para cada cena.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Por que a sociedade ocidental mudou do Thymos (as forças do Thymos grego) para o Eros?
Como enfrentar a cólera e a confrontação com o mundo árabe e os ativistas violentos de um campo e de outro?
Como enfrentar à superpopulação do nosso planeta?
Infelizmente não tenho nenhuma resposta.
Marco Berrettini nasce no dia 23.10.1963 em Aschaffenburg – Alemanha. Seu interesse pela dança começa em 1978, quando ele ganha o Campeonato Alemão de Disco Dancing. Desde então ele decide melhorar as suas capacidades técnicas. Nos três anos seguintes, ele recebe um grande número de aulas e workshops de dança jazz, moderno e ballet clássico. Paralelamente à sua formação acadêmica regular, ele trabalha para o Ballroom Dance Scholl Bier em Wiesbaden como coreógrafo para Noites de Gala. Ali ele dirige um grupo de 28 bailarinos amadores (entre homens e mulheres). É assim que ele entra no universo dos filmes musicais americanos. Com seus bailarinos ele estuda, rouba e adapta algumas cenas de dança de West Side Story e Eastern Paradise.
Depois de se graduar, ele começa uma formação profissional de dança; primeiro na London School of Contemporary Dance, e em seguida na Folkwangschulen Essen, sob a direção de Hans Züllig e Pina Bausch. Em Essen e Wuppertal ele desenvolve seu interesse pela dança-teatro alemã e coreografa o seu primeiro Solo contemporâneo: “the horny Santa Claus”. Durante aquele tempo, a técnica Jooss/Laban/Leeder/Cecchetti significa tudo para ele e nos 10 anos seguintes ele vai trabalhar sob a influência da dança-teatro de Pina Bausch. Especialmente no que diz respeito à “forma” e como um espetáculo é construído. Ali parece haver uma grande quantidade de liberdade e possibilidades. Mas no que diz respeito ao “conteúdo” Berrettini parece ser muito mais cético. Berrettini pertence aos anos 80 e o trabalho psicoanalítico da maioria das grandes companhias não lhe atrai. Podemos perceber uma mudança de geração.
Logo após receber seu diploma como bailarino ele tenta construir a sua própria companhia em Wiesbaden. Podemos dizer, que sem nenhum sucesso. Retrospectivamente pode ser mencionado que no começo dos anos 80 as companhias de dança independentes não recebiam nenhum apoio na Alemanha e que o público estava apenas acostumado a freqüentar os teatros nacionais. Além disso, o trabalho de Berrettini não era o mais comunicativo. Ao lado de suas tentativas de ser reconhecido como um bom, novo e revolucionário coreógrafo, ele estuda Etnologia Européia, Antropologia Cultural e Ciências Teatrais na Universidade de Frankfurt. Durante alguns anos, Berrettini luta com dificuldade pelo seu caminho na dança. Ele poderia ter tido facilmente um trabalho como bailarino clássico ou no Wuppertaler Tanztheater, mas ele acredita seriamente que algum dia a sua carreira vai dar certo. Ao mesmo tempo ele paga o seu aluguel jogando Gamão e dando aulas para amadores.
Em 1988 ele assina um contrato com uma companhia de dança francesa. Cansado da Alemanha ele espera que a França vá lhe oferecer novas oportunidades. Desta vez ele vai ter mais sorte. Paralelamente ao seu trabalho com o coreógrafo Georges Appaix, ele cria as suas próprias peças. O nome da sua companhia, na época, era “Tanzplantation”. Em 1999 o Teatro Kampnagel em Hamburgo produz o seu espetáculo “MULTI(S)ME”. Seguindo os conselhos do diretor do Kampnagel, Res Bosshart, a sua companhia, já com 12 membros, muda seu nome. *MELK PROD. nasceu. Desde então Marco Berrettini, em colaboração com a sua companhia, produziu mais de 25 peças e ganhou alguns prêmios, como o ZKB PRIZE no Theaterspektakel Festival em Zurique. Para que vale ganhar prêmios em coreografia.
Em 2005 “No Paraderan” estréia no Theatre de la Ville em Paris. Um grande escândalo acontece na noite de estréia. Alguns espectadores até quiseram bater em Berrettini, esperando por ele na saída dos artistas. Em menos de 6 meses a Companhia perde o apoio dos teatros que *MELK PROD. costumava trabalhar. Sem dinheiro, a companhia atravessa algumas temporadas difíceis. Mas desde 2008 a companhia começa a levantar a sua cabeça e a sua criação. “*MELK PROD. goes to New Orleans” re-encontra seu público. Durante longos anos de colaboração, os intérpretes assumiram responsabilidades que vão muito além da execução pura do ditado coreográfico. Seus bailarinos, o mais novo com 26, o mais velho com 57 anos de idade, melhoram através dos anos. Exatamente como um bom vinho tinto.
O trabalho de Berrettini se estende largamente. Desde Performances em Museus a produções de filme com diretores de cinema estrangeiros; desde Video-instalações no Palais de Tokyo em Paris a jantares festivos com pessoas famosas que não conhecem ele de lugar nenhum. Atualmente Berrettini trabalha na peça “iFeel”. Uma peça para 6 bailarinos que tentam traduzir o último livro de Peter Sloterdijk: “Coléra e tempo” em um material teatralmente explorável. A estréia aconteceu em novembro de 2009 em Paris. Em Fevereiro de 2009 Berrettini gravou o filme “Tournée” sob a direção do ator/director Mathieu Amalric. Mas a sua melhor “criação” é e será Stella, a sua filha de 6 anos de idade, com quem ele vive em Genebra.
Marco Berretini por Marco Berretini.
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E os diálogos continuam, desta vez temos as respostas de Cláudio Lacerda, bailarino, coreógrafo e pesquisador pernambucano:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?
Os pontos de partida (no plural, mesmo) podem surgir de inúmeros lugares; pode ser um tema, sensações ou ideias de movimento. A partir um ponto, procuro fazer cruzamentos de vários meios (leituras, imagens, sons, etc.), para me alimentar. Anoto algumas questões que quero trabalhar e vou à prática. Pra mim a dramaturgia na dança nasce dessa prática, no corpo em cena (qualquer que seja a sua proposta), senão ficam permanecendo pensamentos, elucubrações, ou dramaturgia teatral.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
Creio que representações estão em nossa vida e sociedade, quer queiramos ou não: linguagem/discurso, gênero, códigos sociais, etc. Mesmo que não queiramos fazer uma representação mimética ou figurativa numa obra, estas outras pairam. O que procuro fazer é olhar criticamente para elas, o que sempre é um exercício, e tentar: driblá-las, expô-las, fragmentá-las, o que der…
Que relações você se propõe com seus espectadores?
Meus trabalhos nascem de inquietações; de alguma forma gostaria que elas tocassem quem assiste a meus trabalhos. Como meu trabalho tem uma base forte na pesquisa de movimento, penso que o canal mais ativado dos espectadores é o cinestésico, mas nunca iremos saber a resposta de cada pessoa, pode ser mais visual, mais sonora, mais cognitiva, etc. Prefiro espaços mais intimistas, que promovam uma proximidade. Não gosto de interferir verbalmente, nem propor tarefas aos espectadores. Respeito a inteligência deles e o nível de comprometimento com o trabalho vai ficar a cargo de cada um.
Com que corpo trabalhas? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?
Um corpo que procura o autoconhecimento, um corpo sensível, poroso, em que técnica e vivência dialoguem sempre. O corpo é o lugar do meu trabalho; a dança me fascina por esta característica de usar o corpo e o movimento, que são marginais em relação à linguagem/discurso, e que podem engendrar significados múltiplos.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Não me arrisco, nem gostaria, de montar uma “cartilha” do que arte contemporânea deve perguntar e responder. Acho que arte pode nascer de uma inquietação, um desconforto, um devaneio, etc. etc. e que o artista deve se abrir a estes, pois são outros mundos/visões de mundo a querer vir.
Cláudio Lacerda é bailarino, coreógrafo, professor de dança e pesquisador. Especializado em Estudos da Dança (Laban Centre, Londres, 1997-9). Bacharel em Dança (UFRJ, 2007). Fez workshops com importantes artistas e teóricos do Brasil e do exterior, como Susanne Linke, Rui Horta, Pierre Droulers, Jean-Yves Ginnoux, Gary Stevens, Vera Mantero, Cristiana Morganti (Wuppertal Tanztheater-Pina Bausch), Denise Namura, Jonathan Burrows, Ramsay Burt, Isabelle Launay, Márcia Milhazes, João Saldanha, Roberto Pereira, André Lepecki, entre outros (1998-2006). Integrou a Companhia dos Homens (1992-97), Recife, e o Ground Effect Physical Theatre (1998-99), Londres. Iniciou dança contemporânea e teatro em Recife (1990) e sua formação em dança inclui aulas e workshops com diversos professores e artistas brasileiros e estrangeiros. Criações: “O Diafragma Fecha” (1999), “Deslocado” (1999), “Dual” (2000), “A Cidade no meu Corpo” (2001), “Interferência Amorfa sobre Ponte da Boa Vista” (site-specific – 2001),”Deslocado-Relocado” (2002), “Bolhas em Interface” (2005), “Vento Poeira Larva” (2005),“Interregnum” (2006), “Deserto Aresta” (2008), “Real/Duplo” (2010). Idealizador do projeto Visões Contemporâneas do Recife (2001, produzido por Adriana Faria). Autor de artigos e revisões. Autor do livro “Representações de masculinidade na dança e no esporte: um olhar sobre Nijinsky e Jeux”, a ser publicado em 2010 (Funcultura/PE).
www.claudiolacerda.blogspot.com
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Os pontos de vista se abrem na diversidade. E continuamos os diálogos, agora com Juan Dominguez, intérprete e coreógrafo espanhol:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias você utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?
Normalmente, para não dizer sempre, o ponto de partida nasce no processo da peça anterior. A dramaturgia se cria durante o processo e se fecha no último minuto, inclusive às vezes logo depois da estréia. Não fecho até o final. Já que cada peça necessita uma nova metodologia, uma nova relação, um novo recipiente. A fragilidade e a incerteza são constantes, desta forma que a dramaturgia se fecha ou se segue abrindo quanto mais tarde melhor, ou pior, mas muito tarde.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
A representação é o fundo do meu trabalho. Mas gosto que às vezes, quando me convém, se converta em figura, em maneira ou em trajetória. Às vezes também está aí e eu não dou importância.
Que relações você se propõe com seus espectadores?
De cumplicidade, de trabalho, de responsabilidade. Para mim são partes indissolúveis ao trabalho. Presença constante e incisiva, interferência cardíaca.
Com que corpo trabalhas? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?
O corpo é tudo, inclusive na sua ausência, é a figura e as vezes o fundo, está de maneira funcional ou como mapa de identidade, e às vezes como capricho, desejo, motor, experiência, ou experimento.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Esta pergunta só podem responder os fatos. O que a contemporaneidade tenha que dizer dirá. Eu não quero ter a responsabilidade de dar personalidade a um conceito. Os mundos são infinitos e paralelos ao mesmo tempo em que dobrados. Assim que, a contemporaneidade não pode ser a mesma para todos estes mundos. Eu acredito que a contemporaneidade tem que ser flexível, rápida e lenta, sexy e feia, tem que estar aí sem que percebas e tens que poder enganá-la. Tens que jogar com ela e evidentemente tem que ser política, ativista, reflexiva e chegar muito, muito dentro. Tem que ser mais contundente e cotidiana.
Juan Dominguez é intérprete e coreógrafo, formado em dança clássica, contemporânea e vídeo na Espanha e Estados Unidos. Desde 1987 trabalha como intérprete e assistente com diferentes companhias e coreógrafos na Europa. Dá aulas e oficinas de dança e composição. Desde 1992 trabalha em suas próprias peças. Títulos desde 2000: The taste is mine 2000. Todos los buenos espías tienen mi edad 2002. The application 2005. La ópera Seven attempted escapes from silence 2005. Shichimi togarashi 2006. Todos los buenos artistas de mi edad están muertos 2007. Proyecto de investigación de la… a la… 2007/08. Don´t even think about it 2008. Blue 2009. Artista em residência em PODEWILL, Berlim (Alemanha) durante os anos 2004/05. Desde 2003 é Diretor Artístico do Festival In-Presentable (La Casa Encendida/Madrid).
O trabalho de Juan Dominguez se baseia em perguntas sobre o meio teatral. Trabalhando na relação entre diferentes códigos, suas obras propõem a dissolução entre a ficção e a realidade.
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E é com prazer que seguimos com outros pontos de vista, a convidada da vez é Denise Stutz, bailarina e coreógrafa mineira:
Como você identifica o ponto de partida e que estratégias você utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça?
Cada trabalho parte de um lugar. Não tenho nenhum método e as estratégias vão surgindo durante o processo. É tudo bastante caótico. Neste último processo estou tentando entender para onde os materiais me levam, a dramaturgia surge a partir deles (dos materiais,) não só meus, mas também dos vídeos que são pensados e criados pelo Felipe e aí discutimos a questão primeira colocada no trabalho e quais outras questões surgem a partir daquele material e que sentidos elas teriam dentro da obra. Muito diferente dos últimos trabalhos onde o processo de criação, sentido e dramaturgia foram construídos ao mesmo tempo e onde trabalhei sozinha.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho?
Acho esta uma discussão em que tenho que antes de tudo entender de onde estou partindo para falar de representação. Estou representando para o outro ou o outro está representando em mim? No caso deste ultimo trabalho tento que a representação venha de um lugar que não tenho o controle sobre o que esta sendo representado. Venha do olhar do outro “ver é ser visto, olhar é ser olhado. A reflexidade especular da visão prolonga no mundo a reversibilidade sensível do corpo – que ao ver-se e tocar-se é visto e tocado-, como se o olhar que abre a nossa pele ao olhar dos outros a transportasse para as coisas a as recobrisse com uma pele- espelho que nos refletise.” José Gil .
Que relações você se propõe com seus espectadores?
A proximidade, a sugestão do movimento e da imagem. A proximidade se desenha de inúmeras maneiras. Nos meus primeiros trabalhos a proximidade se dá por um diálogo direto com o espectador neste último não, é indireto. Tento que o próximo esteja distante e aí passo a trabalhar pela sugestão, que cada sugestão de imagem e movimento o observador possa prolongar e criar o seu próprio movimento a sua própria imagem, a sua sensação através da relação que meus movimentos criam junto com as imagens.
Com que corpo trabalhas? Qual é o lugar do corpo em seu trabalho?
Meu trabalho é através do corpo, do corpo que dança. Tenho esta questão sempre sobre como levar meu corpo com a todas as suas inscrições com toda a sua história para um outro lugar. Como posso deslocar toda esta formação e informação de dança e colocar nestes movimentos questões que me atravessam agora.
Sou bailarina, eu danço, porque foi assim que construí e desconstruí o meu corpo e a minha história.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia?
Não sei. Gosto das obras que me produzem perguntas que me abrem para outras perguntas. Perguntas que faço para mim mesma no mundo que vivo agora e me colocam em contato com questões que me atravessam naquele momento.
Denise Stutz iniciou seus estudos de dança em Belo Horizonte. Em 1975, junto com outros 10 bailarinos fundou o Grupo Corpo. Trabalhou com Lia Rodrigues como bailarina, professora e assistente de direção. Foi professora do curso técnico da Escola Angel Viana. A partir de 2003 começa a desenvolver seu próprio trabalho solo, apresentando-se na França, Espanha e África. Seu solo”DeCor” foi apontado pela critica de ” O Globo” como um dos dez melhores espetáculos apresentados no Rio de Janeiro no ano de 2004. “Em 2005 estreou o solo “Absolutamente Só” no Itaú Cultural em São Paulo e em 2007 criou “Estudo para Impressões” estreando em Madri.
Em 2008 trabalhou uma releitura dos seus trabalhos em “3 solos em 1 tempo” se apresentando no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Goiania, Madri.
Em 2009 apresentou “3 solos em 1 tempo” nos festivais Move Berlim e na Bienal de dança de Fortaleza. Foi convidada pelo Festival Panorama da Dança para trabalhar com os artistas do Colaboratorio no Rio de Janeiro e em Teresina.
Foi selecionada pelo Projeto Rumos Itaú Cultural para desenvolver sua pesquisa para o solo “Justo uma Imagem”.
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Em meu interesse de trabalhar sobre o ponto de vista do outro, convidei uma diversidade de coreógrafos para uma entrevista sobre criação. As questões serão as mesmas para cada artista, buscamos as diferenças nas respostas.
Segue a primeira entrevista, com Frans Poelstra, performer e coreógrafo holandês:

Como você identifica o ponto de partida eu peço ao ponto de partida para ele ou ela se identificar, e se não existir nenhuma identificação, ele ou ela não pode continuar. E que estratégias você utiliza para desenvolver a dramaturgia de cada peça? As estratégias estão lá para desenvolver a dramaturgia em peça.
Qual é o lugar da representação em seu trabalho? Normalmente eu coloco ela atrás de uma cortina preta, mas como eu também performo em lugares brancos eu enfio ela no meu cú, mesmo que isto seja um pouco doloroso.
Que relações você se propõe com seus espectadores? Absolutamente nada de casamento! O que eu proponho é mais como uma noite de aventura (a one night stand).
Com que corpo você trabalha? Um corpo “cheiroso” e peço desculpas aqueles que sintam nojo dele. Qual é o lugar do corpo em seu trabalho? O corpo tá sempre em cima. Eu sei que pode parecer um pouco fora de moda, mas eu acredito que é importante manter as tradições vivas e preservá-las para a próxima geração.
Que perguntas e respostas as artes contemporâneas devem produzir hoje em dia? Sobre o que é tudo isto? Tudo! E por quê? Por que não!
Quando criança Frans Poelstra olhava mais para as águas dos canais de Amsterdã do que ficava na escola. Ele ainda não tem diploma, mas manteve seus sonhos. Sonhos de ser o próximo Jimi Hendrix, mas ele não tinha talento para tocar guitarra, então ele decidiu trabalhar no teatro, o lugar onde você pode sonhar profissionalmente. Para ele, performar é uma questão de manter os canais abertos – para poder pensar, escutar e sonhar, sem assumir nenhuma responsabilidade de forma, estrutura ou interpretação. Como performer ele quer dançar através de todas as possíveis realidades virtuais de pensamentos e associações. Desde 2003 ele faz isto em colaboração com o performer/escritor Robert Steijn, juntos eles formam United Sorry. Em sua publicidade eles se apresentam como uma companhia que “traz semi-intelectuais/semi-sentimentais e rudimentarmente-conceituais eventos no campo das artes”. Originalmente vindos da dança, agora eles fazem trabalhos que misturam dança com teatro, música e artes visuais de um jeito que faz as pessoas pensarem: “Estou sonhando, isto é realmente possível ou pelo menos aceitável?”
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“É meia noite. A Chuva bate nas janelas. Não era meia noite. Não chovia (…) Sou deus, não era deus, sou o palhaço de deus, sou apis, sou um egípcio, um índio pele-vermelha, um negro, um chinês, um japonês, um estrangeiro, um desconhecido, sou a ave do mar que sobrevoa a terra firme, sou a árvore de Tolstói com suas raízes. Sou o marido e a mulher, amo a minha mulher, amo o meu marido”. Nijinkski
A esta altura do campeonato um já não sabe quantos são. E saber quantificar não é o que interessa. Interessa saber que somos. Que somos em plural. Ser sendo. E ser é verbo infinitivo. E a identidade é um organismo. Um instrumento. Uma ferramenta aplicável de acordo com as necessidades e circunstâncias. Servindo para a compreensão deste universo intangível. A identidade não começa nem termina. E as ações, elas acontecem, escrevendo as histórias. Em plural. Porque já não existe uma única história. Porque história e identidade têm muito de ficção. E a ficção tem tudo a ver com a realidade. Juntos descobrimos que o imaginário está na sensação. É lá que ele vive.
E as interrogações não param de surgir. Para onde vamos? E vamos juntos, todos? Alguém vai ficar pra trás? E por quê? Será que estamos longe demais uns dos outros? O que nos mantém vivos? O que é que nos permite continuar? Que estranha força é esta que nos empurra pra frente? Mesmo estando sempre à beira (do abismo, de um colapso, das guerras, da morte, da paralisia, do esquecimento, da falta de sentido total) algo nos provoca o canto e o encanto, algo nos convida para o movimento, para a construção de pontes, invisíveis ou não. Loucura ou lucidez, seja lá o que este algo for que chegue a todos, como um sopro que nos faz “EMPURRAR AS PAREDES QUE NOS CERCAM PELO LADO DE DENTRO”. Infinitamente.
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Por que me interesso pelo outro? Porque sou vulnerável. Porque preciso me conhecer. Porque só me conheço se reconheço o outro. Porque já não é mais possível fingir relações. Porque chegou a hora de sermos diretos. Porque precisamos seguir criando novas formas de nos relacionar. Porque a Arte tem este poder. Porque as relações são formas de vida. Porque as relações são encontros políticos. Porque é preciso entender que precisamos do outro. Porque é preciso parar de ver o outro como ameaça. Porque é preciso entender que a violência e a dominação são formas injustas de relação. Porque é preciso entender que o eu só existe a partir do outro. O eu só existe porque somos outros. O outro do outro sou eu. Somos, fomos e seremos muitos. Vivemos através de encontros. O teatro é um espaço de encontros. Vamos ali para estarmos ao vivo diante do outro. O teatro é o lugar onde a transformação de papéis acontece naturalmente. No teatro entendemos que somos parte da história, que muitos vieram e virão, que não existe uma só narrativa. Somos atores, agimos em relação aos outros, decidimos o curso dos acontecimentos, aparecemos para desaparecer e inversamente.
E no fim, aonde começam os nossos gestos?
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“A emancipação começa quando recolocamos em questão a oposição entre olhar e agir, quando compreendemos que as evidências que estruturam assim as relações do dizer, do ver e do fazer pertencem elas mesmas à estrutura de dominação e de sujeição. Ela começa quando compreendemos que olhar também é uma ação que confirma ou transforma esta distribuição de posições. O espectador também age, como aluno ou sábio. Ele observa, seleciona, compara, interpreta. Ele liga o que ele vê a muitas outras coisas vistas em outras cenas, em outros tipos de lugar. Ele compõe seu próprio poema com os elementos do poema que está a sua frente (…)”
Trecho de “O Espectador Emancipado” (2008), em tradução minha.
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Durante o projeto Articulações um momento me marcou em especial, acredito que ele tenha mesmo tudo a ver com a pesquisa do “outro do outro”. Trata-se de uma intervenção realizada no Bairro do Recife Antigo, orientada por Johann Maheut e eu:
Com um elástico tentamos materializar as tensões e relações entre as pessoas. Procurar espaços de liberdade para cada um, em contradição, ou não, deixando emergir a vontade de um grupo. Ir à rua, sair do estúdio e explorar um outro ambiente, propondo um encontro entre a nossa micro-comunidade e a realidade recifense.



fotos de Daniela Azevedo
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Atualmente estou vivendo uma pesquisa dentro da outra. Acontece que estou desenvolvendo o projeto Articulações e “O outro do outro” ao mesmo tempo. Sem medo de ser promíscuo, aproveito para descobrir como estas experiências se tocam.
A realização do Articulações em Recife está sendo um grande desafio e aprendizado para mim. Desde a prática da produção, com todas as etapas e dificuldades de se produzir cultura no Brasil, passando pela experiência da realização de um desejo e encontro com outras pessoas, este projeto está sendo o meu grande laboratório.
Além de conceber e produzir este evento, nele também atuo como professor/artista. Nestas duas semanas de oficina que estou orientando em parceria com o artista plástico e cenógrafo Johann Maheut, praticamos a transmissão através da percepção do espaço/tempo e de suas relações entre comunidade/indivíduo. Procurando “encarnar questões” seguimos o exercício da coreografia.
Uma das questões que nos acompanha sempre é sobre a qualidade do olhar e seus movimentos:
Olhar para si
Olhar para outro
Olhar para todos
Aqui, nas sutilezas da visão, percebo como as relações se iniciam a partir dos pontos de vista. Relações que desenham o espaço, recortando, percebendo, descobrindo volumes, dimensões, temperaturas, texturas, distâncias, tensões e etc. Isto tudo sempre construindo realidades. Política, portanto.
Movimentamo-nos no espaço em relação ao outro e aos outros. A autonomia-dependente, ou a dependência-autônoma. Um caminho de duplo sentido sem fim.
O Atelier de Criação (módulo intensivo de oficinas do Articulações) é composto por um grupo variado de artistas, alguns mais jovens outros mais experientes, todos com trajetórias singulares e diferentes percursos nas artes, seja em dança contemporânea, clássica, frevo, teatro, pilates, psicologia, artes visuais, performance art e etc.
O lugar onde trabalhamos, o estúdio da Cia Compassos, no centro do Recife, tem as janelas bem abertas, por onde atravessam os sons da cidade, contextualizando a nossa prática no presente da realidade recifense.
E seguimos investigando possibilidades, escrevendo com o corpo e com palavras, arriscando composições que “não precisam parecer a coisa alguma”.
*caso queiram saber mais sobre a experiência deste Atelier de Criação, visitem o nosso blog www.articulacoesblog.blogspot.com, nele vocês encontrarão algumas reflexões, imagens, depoimentos e registros desta investigação, escritos por mim e por outros participantes.
“Compossibilidade é um conceito filosófico desenvolvido por Leibniz. De acordo com Leibniz uma coisa completamente individual (uma pessoa, por exemplo) é caracterizada por todas as suas propriedades, e estas determinam suas relações com outros indivíduos. A existência de um indivíduo pode contradizer a existência de outro. Um mundo possível é composto por indivíduos que são compossíveis — ou seja, indivíduos que podem existir juntos.Um mundo entre eles é percebido como mundo real,e este é o mais perfeito de todos.”
via wikipédia, tradução minha
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Aproveito este espaço para divulgar o projeto que estou envolvido: 
ARTICULAÇÕES – CORPS EN TEMPS é a realização de um fórum de intercâmbio e formação em artes cênicas no Recife, incluído na programação do Ano da França no Brasil.
A acontecer durante o mês de outubro de 2009, este evento incluirá oficinas de dança, composição, improvisação, teorias do corpo e cenografia, assim como a apresentação pública de uma conferência e um espetáculo.
Articulações propõe relações sociais pelo viés da arte. Surge do desejo e necessidade em conectar o corpo no tempo através do espaço, em plural, integrando pessoas, apesar das distâncias geográficas, econômicas e culturais.
Trata-se de um encontro de mundos, situando em Recife uma experiência de criação e investigação nas artes performativas atuais, na medida em que se envolve com artistas representativos da nova dança francesa.
Um processo de intercâmbio, que aqui apenas se inicia, desejando se multiplicar e vir a gerar novas formas de agir.
http://www.articulacoesblog.blogspot.com
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Senhoras e senhores, é com prazer que apresento a vocês a garrafa de Klein, um conceito da matemática que me interessa bastante.
Trata-se de uma superfície fechada sem margens e não orientável, isto é, uma superfície onde não é possível definir um “interior” e um “exterior”. Concebida pelo matemático alemão Felix Klein em 1882, a garrafa de Klein está estreitamente relacionada a fita de Möbius.
Curiosamente, o nome desta superfície, provém de um erro de tradução da expressão alemã Kleinsche Fläche (“superfície de Klein”). Em algum lugar do passado houve uma confusão entre Fläche (superfície) e Flasche (garrafa). A partir daí, o termo equivocado se impôs, inclusive em alemão, onde hoje se utiliza o termo Kleinsche Flasche (garrafa de Klein). É evidente que esta superfície lembra bastante uma garrafa.
A partir disto tudo, algumas questões surgem com urgência:
Por que razões teimamos em entender as relações através de limites tão específicos?
Estes limites seriam necessidades reais ou imposições artificiais?
A que e a quem interessa demarcar ou anular fronteiras?
Seria possível pensarmos um mundo ausente da dicotomia exterior/interior?
E que mundo seria este, o caos, o vácuo, a natureza e seus ecossistemas em harmonia?
Então, como pensar o outro?
Reconhecer o outro implica necessariamente marcar limites e vê-lo como algo exterior?
Ou seríamos todos nós parte de um continuum?
Pensar que somos todos parte de um continuum significa negar o outro?
Sem respostas no momento, esta garrafa me abre possibilidades, evidenciando que o dentro e o fora não são conceitos universais. Sinto alegria e uma certa liberdade.
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Recebi um atento comentário do amigo Paulo MilHomens sobre “o outro do outro”:
“mas se é o outro do outro então sou EU. Claro que EU sou o Outro do
outro passando por aí, pela alteridade. Mas uma falsa alteridade,
porque apenas reflexiva. O outro do outro sublima-se em espelho através
do EU. para haver outro é preciso uma especular…idade, uma dobra na
dimensão identitária referencial. Ou será que essa dobra, esse vinco,
esse caminho desenhado a partir do centro e imóvel, apenas surge como
algo para nos distrair, um fumo que cria a ilusão que para além do meu
corpo há outra coisa?”
Eu, por aqui, fico pensando nestas considerações.
Obrigado Paulo!
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Neste instante estou diante de ti.
Não era neste instante, não estava diante de ti.
Neste instante estás diante de mim.
Um diante do outro.
Nós, outros.
Face a face.
Estamos.
Eu sou você agora você sou eu.
Sim, sou você e sou eu.
Não, é você e sou eu.
Somos diferenças e semelhanças.
Algo que será a partir do nada.
Aparece no mundo, o rosto do outro.
Já não tenho máscara.
Olhando ao fora que é dentro, sou simultâneo.
Arranquei a tua cara.
Sem rosto vejo dentro de ti.
És o outro do outro, antes e mais além.
Ali, um ponto, todos os pontos.
Teu início e meu fim em seu começo.
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Durante o encontro de lançamento do programa Rumos Dança 2009-2010, em São Paulo, uma questão tornou-se o centro do debate: a pesquisa em arte.
“Como se poderia definir uma pesquisa em dança?”
“Como apresentá-la e como essa apresentação se distingue da idéia de espetáculo?”
A pertinência da discussão reside na atualidade do tema. Presente em diversos debates sobre arte contemporânea, a questão da pesquisa artística se revela escorregadia e suscita divergências. Seja pela dificuldade em compreendê-la com definições singulares e múltiplas, seja pela dificuldade em implantá-la na sociedade do espetáculo, o certo é que se faz necessário refletir sobre o assunto.
Sabemos que a prática artística é capaz de desenvolver a nossa compreensão de mundo. Múltipla em sua natureza, a arte tem o poder de colocar em perspectiva questionamentos, confrontações e reflexões sobre o pensamento contemporâneo.
Ao ler o texto “The Debate on Research in the Arts”, de Henk Borgdorff, encontramos reflexões agudas em torno da investigação em arte, nele, Borgdorff levanta perguntas e procura esclarecer o assunto.
“Quando a prática artística conta como pesquisa?”
“Não seriam todas as práticas artísticas pesquisas?”
“Como a pesquisa artística se diferencia da chamada pesquisa acadêmica ou científica?”
Em busca de respostas, o autor segue diferenciando pesquisa sobre arte, pesquisa para arte e pesquisa em arte.
Segundo Borgdorff, pesquisa sobre arte implica uma idealizada distância teórica e certa separação entre o pesquisador e seu objeto de pesquisa. Aqui, as características mais comuns são o uso da reflexão e interpretação.
Em pesquisa para arte, encontramos o desenvolvimento de ferramentas e materiais necessários ao processo criativo e/ou ao objeto artístico. Como, por exemplo, técnicas de interação entre luz e dança, entre outros.
Já pesquisa em arte, diz Borgdorff, é o mais controverso dos três modelos. Também definido como “reflexão em ação”, ou “perspectiva performativa”, trata-se de uma modalidade “de investigação que não assume separação entre sujeito e objeto e que não quer saber de distâncias entre o investigador e a prática artística. Pelo contrário, a própria prática artística constitui uma componente essencial não só do processo de pesquisa, mas também dos seus resultados. Esta abordagem, baseia-se na compreensão de que nas artes não existe diferença fundamental entre teoria e prática.”
A partir desta última definição, podemos compreender um caráter imanente ao ato artístico, assim como uma relação conciliada entre a dimensão material e imaterial da arte, contextualizando-a na cultura através da história . Diante da dificuldade em objetivar a pesquisa em arte, cabe ao artista escolher suas questões e desenvolver seus métodos de experimentação para articular o conhecimento vivido através do processo criativo da obra de arte.
E é através do contato com a comunidade que a sua experiência se efetua.
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Estou lendo “Tábula Rasa” ,de Steven Pinker (Companhia das Letras 2004), psicólogo evolucionista e professor de Harvard. Trata-se de um livro interessantíssimo, de uma leitura bastante fluida. Nele, Pinker faz uso de suas pesquisas nos campos da neurociência e genética para refutar e relançar o debate sobre o tema. Sua visão é extremamente atual, discorrendo sobre diversos assuntos da contemporaneidade.
Aqui o trecho de uma entrevista com Steven Pinker no Estado de São Paulo:
“O senhor também afirma no livro que o pós-modernismo é baseado na tábula rasa e que ele destrói toda a graça das artes.
Pinker – O pós-modernismo certamente nega que exista algo como a natureza humana. Para eles, toda nossa experiência, amor romântico, ciúmes, diferença entre os sexos são construções sociais que poderiam ser diferentes se a história tivesse se desenvolvido de outra forma. No caso da arte, o pós-modernismo nega que temos a capacidade de ter prazer com ela. Eles vêem a arte como um produto de forças econômicas e políticas. Ao negar a possibilidade de as pessoas terem uma habilidade inata em ter prazer com a beleza, a melodia, histórias e outras leva à criação de uma arte à qual falta sensibilidade.”
Filed under: Escrita Coreográfica, Identidade, Referências, Representação
*este post é uma resposta aos comentários da Denise e do Marcelo ao post anterior.
Alô alô Denise e Marcelo,
Obrigado pelas visitas e comentários, vejo que já foi dada a largada.
Denise, não conhecia a Eleonora Fabião, mas gosto da reflexão que ela propõe, muito obrigado. Quanto a isto, me parece igualmente necessário e impossível pensar sem buscar definições, acredito que somos mediados por linguagens, e elas funcionam por recortes, ou seja, definições. Do contrário seria o mesmo que acreditar que podemos abandonar a consciência. Bom, mas está claro que não existe nem nunca existirá um pensamento absoluto, este sim, é artificial e violento. As definições são sempre úteis quando apontam sentidos, direções, levantando questões, em abertura e circulação.
Quando sugiro que a dança seja um laboratório das decisões humanas, se trata de um ponto de vista pessoal meu, fruto das minhas reflexões e interesse sobre a arte de compor, de escrever com o corpo, que para mim é a arte das decisões.
Marcelo, obrigado por lembrar a idéia da tabula rasa, ela me interessa muitíssimo, por uma série de razões estéticas:
A primeira é que atualmente acredito que através dela o contato com o espectador possa acontecer de forma direta, sendo ele convidado para “entrar” na folha em branco e compor de acordo com seu próprio imaginário.
A segunda razão é que considero importante partirmos de um ponto comum, o código corrente da situação em que nos encontramos, para pouco a pouco entrarmos em ficção. Penso que ao assumir a representação, vamos em direção a uma relação mais horizontal, de fluxo e refluxo com o espectador, uma relação direta visando ativá-lo criticamente, em oposição às mitificações e distanciamentos entre artista, obra e espectador. O que desejamos é um encontro com um espectador emancipado, como tão bem propõe Jacques Rancière.
A terceira é que diante da imensa confluência de informações de que o contemporâneo é composto, penso que a tabula rasa possa nos servir para agenciar melhor a leitura e escrita de ações, funcionando como um terreno a ser ocupado, um espaço sempre em potência onde tudo é matéria. Assim, a possibilidade de desenvolver trajetórias, pé ante pé, surge com conseqüência, clareza e sentido.
Bom, mas está claro que a tabula rasa é uma idéia que não corresponde à realidade, ela é uma abstração, um conceito artificial. Sabemos que somos muitos, sabemos também que são múltiplos os tempos e realidades. Como já disse o poeta:“o que eu sou não fui sozinho”.
A pureza não existe.
Um abraço e seguimos falando, isto está só começando.






































